quarta-feira, setembro 20, 2017

«Inflação» em Portugal de 1970 até ao euro: moral da história


TAXAS DE INFLAÇÃO* EM PORTUGAL

1970 - 4.5 %
1980 - 16.6 %
1990 - 13.4 %
2000 - 2.9 %
1971 - 7.5 %
1981 - 20.0%
1991 - 11.4 %
2001 - 4.4 %
1972 - 9.0 %
1982 - 22.4 %
1992 - 8.9 %
2002 - 3.6 %
1973 - 10.4 %
1983 - 25.5 %
1993 - 6.5 %
2003 - 3.3 %
1974 - 27.8 %
1984 - 29.3 %
1994 - 5.2 %
2004 - 2.4 %
1975 - 20.7 %
1985 - 19.3 %
1995 - 4.1 %
2005 - 2.3 %
1976 - 18.3 %
1986 - 11.7 %
1996 - 3.1 %
2006 - 3.1 %
1977 - 27.3 %
1987 - 9.4 %
1997 - 2.2 %
2007 - 2.5 %
1978 - 22.1 %
1988 - 9.7 %
1998 - 2.8 %
2008 - 2.6 %
1979 - 24.2 %
1989 - 12.6 %
1999 - 2.3 %
2009 - - 0.8 %

Fonte: www.bportugal.pt (2002); www.gesbanha.pt/informacoes/cidadao/tx inflacao.htm (1970-2001). Os valores a partir de 2003 foram posteriormente incluídos (Instituto Nacional de Estatística e Banco de Portugal). * Trata-se, mais corretamente, do IPC (índice de preços ao consumidor).


Este quadro mostra perfeitamente por que razão o governo de Marcelo Caetano se fragilizou ao ponto de cair “de podre” em 1974: a inflação instalou-se e mais que duplicou entre 1970 e 1973, ainda antes do “choque petrolífero”, numa dinâmica que tem toda a aparência de motivação estritamente interna (a política “social” então encetada certamente que teve tudo a ver com isto, sacrificando o anterior rigor orçamental a “investimentos públicos” também convenientes do ponto de vista político para o então presidente do Conselho de Ministros).

A este propósito – e por contraste –, deve dizer-se que a duração do governo de Salazar deveria ser mais relacionada pelos historiadores com a sua política monetária e financeira: o rigor orçamental e o “escudo forte”, que controlaram a inflação e as derrapagens das contas públicas, tornaram o seu governo politicamente sólido no médio e no longo prazo porque permitiram um crescimento real do rendimento dos particulares num cenário em que a moeda perdia muito pouco do seu poder aquisitivo, bastando um ligeiro crescimento anual do P.I.B. para esse efeito de enriquecimento deslizante descomprimir as tensões (e a sua sempre possível “politização”) decorrentes das expectativas das pessoas.

Ora, as pressões no sentido de abandonar o enquadramento “macro-económico” criado por Salazar sempre se tinham manifestado desde 1945 (as políticas “industrialistas” à Daniel Barbosa era isso que pediam) e os conselhos que povoam o célebre livro do Prof. Valentim Xavier Pintado (Structure and Growth of the Portuguese Economy, Genebra: E.F.T.A., 1964; reed. Lisboa: I.C.S., 2002) – e que formaram a geração “reformista” que chegou ao poder na burocracia estatal em meados da década de 60 – iam no mesmo sentido.

É sintomático que, no seu Pró-Memória de 1958, o bispo do Porto escrevesse a dado passo: «Posso errar e quase admito que deva errar, porque estou, neste ponto, fora da minha competência; mas não posso furtar-me a pensar que a fonte material dos males nacionais se pode encontrar na rigidez da escala de valores adotada e mantida. Uma coisa, que era necessária e foi maravilhosa, até politicamente, no princípio, na era do resgate, pesou tremendamente na era que V. Exa chamou, se bem me recordo, do engrandecimento. Um financismo à outrance (operando aliás pela compressão dos preços, contra o aumento da circulação fiduciária), invertido num economismo despótico, atuando dentro duma socialidade cujos erros venho procurando apontar, não podia deixar de resultar e resultou efetivamente (com exceção do período inicial dos abonos de família) em benefício dos grandes contra os pequenos e finalmente na opressão dos pobres.» Um autêntico keynesianismo com água benta!.

Caetano chegou assim à chefia do governo num clima já favorável da “opinião técnica” vigente a maiores gastos com programas keynesianos de distribuição da riqueza e de demand management; daí que, em demanda de uma legitimação da sua liderança entre a nova geração de quadros e profissionais, Caetano tenha optado por aquilo que ele próprio denominou “Estado social”, com o seu modelo universal de educação, saúde e pensões de reforma. Por isso é um erro atribuir ao crescimento dos gastos militares com a guerra no ultramar o peso decisivo nesta pressão despesista que levou o governo de Caetano a recorrer à depreciação do escudo para financiar as despesas públicas: segundo os dados de Eugénia Mata e Nuno Valério (História Económica de Portugal: Uma Perspectiva Global, Lisboa: Editorial Presença, 1994, p. 271), as despesas com a defesa representaram 19.1% das despesas totais em 1970 e 14.2% em 1973.

Em 1974 estava já plenamente instalada a perda crescente de poder aquisitivo do escudo que deverá ter criado uma sensação difusa mas fundamentada na sociedade de degradação do poder de compra, não admirando que o golpe de Estado militar tenha colhido apoio entre o funcionalismo público militar e civil a partir de uma motivação claramente salarial (ver as reivindicações iniciais do M.F.A., que só depois se “politiza” para poder levar a cabo uma mudança política de fundo que alterasse a situação “profissional” dos oficiais das forças armadas; entre estes, mesmo que inconscientemente, a perda de poder de compra deverá ter introduzido crescentes dúvidas em relação à validade dos sacrifícios pessoais e familiares envolvidos no esforço de guerra e cada vez menos compensados financeiramente).

A influência do marxismo nos círculos oposicionistas desde os anos 40 explica a sua adoção – primeiro funcional, depois explícita – pelos atores militares do derrube da II República na Primavera de 1974. Essa ideologia, que, no poder, sempre se tornou num “socialismo de Estado”, legitimou um aprofundamento de duas das principais tendências do marcelismo (alargamento do alcance e das despesas com o Welfare State) com repercussões claras na política financeira e monetária: monetarização da despesa pública e depreciação da moeda. Sem surpresas, a inflação quase triplicou em 1974, devendo-se a desaceleração de 1975 e 1976 provavelmente a ajudas externas e ao fim dos encargos com a guerra e o ultramar (segundo Mata e Valério, Op. Cit., p. 265, mesmo que a valores correntes, as receitas continuaram a crescer durante o período revolucionário, pelo que poderiam transferir-se para os gastos “sociais” e suportar, como suportaram, um continuado aumento geral da despesa: esta era de 47.6 milhões de contos em 1973 e de 122.6 milhões de contos em 1976).

A instabilidade política que dominou os primeiros anos da III República não incentivou os governos da época nem a um maior rigor orçamental nem a uma estabilização do escudo, pelo que, de 1976 a 1979, houve uma média de inflação de 22.9% ao ano; só o governo de maioria de Sá Carneiro conseguiu que, em 1980, uma política monetária mais restritiva baixasse a inflação para 16.6%, o que se veio a revelar um fenómeno passageiro, já que, entre 1981 e 1984, no seguimento da crise e instabilidade – primeiro latente, depois patente – instalada no seguimento da morte do primeiro-ministro, a inflação quase duplica novamente.

A ajuda financeira do F.M.I., possibilitada pela breve coligação do “bloco central”, permitiu que, a partir de 1985, se conseguisse voltar a baixar a inflação (cai 10%), tendência que se consolida nos anos seguintes com a estabilidade política permitida pela liderança de Cavaco Silva – só esta consegue um mandato popular para criar uma situação macro-económica estabilizada que neutraliza a influência dos elementos perturbadores da ordem constitucional (comunismo e eanismo) e encontra margem de manobra para, de modo continuado e sustentado, fazer a inflação regressar ao nível de 1970.

É só então que o atual regime verdadeiramente se consolida e fica imune a uma instabilidade crónica do poder executivo que o marcara desde o início; neste contexto, tanto os fundos comunitários como a aceitação da disciplina monetária e financeira dos tratados da União Europeia aliviaram as pressões internas de monetarização das despesas e funcionaram como um travão dos efeitos negativos de descontrolos orçamentais conjunturais como o que ocorreu durante os governos de António Guterres (1995-2002), mostrando a evolução da taxa de inflação em 2002 que o maior rigor orçamental posto em prática pelo novo governo liderado por Durão Barroso já está a surtir um efeito positivo.

Outra questão importante seria ver a evolução do endividamento público, nomeadamente no período da relativa disciplina monetária imposta pela participação na União Europeia.

[Nota de Janeiro de 2004]

segunda-feira, agosto 28, 2017

PO:LIS:BOA (IV)

A menorização do peão (penosamente) explicada

Basta circular em grande parte das ruas de Lisboa para se constatar que os passeios, enquanto vias pedonais, demonstram a menorização do peão na vida urbana e na conceção de cidade (quase) dominante.

Uma grande parte dos passeios tem obstáculos colocados pelos próprios planeadores e gestores urbanos (ou pelos executantes das suas políticas e opções): sinais de trânsito, postes de iluminação pública, caixotes de lixo fixos, etc. O peão, para circular, tem de se desviar destes obstáculos e, muitas vezes, um carrinho de bebé ou uma cadeira de rodas fazem o desvio já com uma roda de fora do passeio. O à-vontade com que se interrompem estas vias pedonais por causa de obras em edifícios ou por abusos de estacionamento dizem muito, respetivamente, da permissividade demasiado natural das autoridades municipais e da cultura que se instalou entre grande parte dos munícipes.

As obras recentemente feitas nalgumas artérias da cidade, por exemplo a avenida da República, exibem às vezes passeios largos que nos poderiam fazer acreditar numa radical mudança de conceções. Tenho sobre isto as maiores dúvidas.

Os passeios, enquanto vias pedonais, não têm de ser necessariamente muito largos; se neles se puderem cruzar sem apertões dois carrinhos de bebé ou duas cadeiras de rodas, é suficiente. Certamente que é bom haver artérias com passeios mais largos, sobretudo se nestes existirem também árvores. Mas o passeio serve sobretudo para circular (algo que, aliás, alguns peões ocasionais parecem também não compreender bem, circulando pelo meio dos mesmos ou aos zigue-zagues ou plantando-se neles em amenas cavaqueiras sem preocupação com quem passa e não tem de pedir licença para o fazer).

Nos novos passeios da avenida da República parece haver uma ideia desviada de que aquelas vias vão servir para as pessoas estarem nelas e não para passarem nelas – concebida provavelmente por alguém que não está muito habituado a frequentar os espaços urbanos como peão. A utilidade daquela largura é discutível para a mera circulação, pelo que se colocaram bancos de jardim na calçada, como que justificando a opção. Mas o que é que alguém vai fazer ali sentado? Vai estar na posição desconfortável de sentir pessoas a desviarem-se, a passarem-lhe por trás ou a inalar os gases das viaturas de passagem?

À esquerda, uma esplanada natural (em Atenas); à direita, uma esplanada na imaginação delirante dos planeadores da "nova" praça Duque de Saldanha (em Lisboa e que serviu de modelo à Av. da República).






Os passeios podem ser lugares para estar se alguns estabelecimentos comerciais os usarem parcialmente como esplanadas. Mas, para provar a minha tese do planeador não pedonal das obras recentes, basta ver a forma como as antigas esplanadas da avenida da República foram transformadas coercivamente em áreas desconfortáveis e artificiais. Uma esplanada confortável e “natural” tem de estar junto à parede e porta(s) do estabelecimento a que pertence, por várias razões: facilita o serviço dos empregados de mesa numa parcela do passeio que não interfere com a parte do mesmo utilizada como via de circulação, dá a sensação de resguardo a quem está sentado (em relação ao movimento vizinho de peões) e também a sensação de estar perto do serviço do estabelecimento em que escolheu estar.

Pois bem, os planeadores e/ou gestores urbanos da nova avenida da República entenderam que junto às portas dos edifícios deveria haver uma faixa de cimento alternativa à calçada e que, sendo aquela destinada à circulação antiderrapante de peões, as esplanadas tinham de “descolar” dos respetivos estabelecimentos e ir para o meio do passeio. Resultado: quem nelas se senta passa a estar numa “ilha” artificial, com pessoas a passarem dos dois lados (na verdade, a desviarem-se ou, nalguns casos, a passarem entre mesas!) e os empregados de mesa a terem de atravessar a via de circulação de peões entre o estabelecimento e a esplanada. E o contacto visual entre os empregados e os clientes fica facilitadíssimo, claro! Alguém no seu perfeito juízo, e que frequente esplanadas urbanas, planearia uma coisa destas?

Na mesma avenida, a forma como foram plantadas ciclovias (às quais voltaremos em futuras crónicas, dada a sua importância) é eloquente da menorização mais ou menos consciente dos peões. As novas ciclovias são paralelas às vias de circulação dos veículos e, como estas, cruzam-se com as “zebras” ou “passadeiras” para peões. Mas se os automobilistas têm uma sinalização luminosa articulada com a destinada aos peões, já os ciclistas não têm e não é nada claro que devam guiar-se pela destinada aos automobilistas ou sequer que a consigam ver. Além disto, em grande parte das “passadeiras”, a ciclovia não deixa ao peão qualquer área para depois dela se colocar junto à estrada; aliás, nada na sinalética pintada no chão indica ao peão onde deve aguardar pelo sinal verde para si nem ao ciclista que a ciclovia é “cortada” por uma via pedonal.

O peão, para atravessar a meio da avenida, tem de se preparar para uma aventura: passar de seguida uma via automóvel lateral, uma ciclovia de dois sentidos, uma estrada com seis faixas de rodagem mais uma via automóvel lateral antes de chegar ao passeio do outro lado. Nesse percurso, tem de estar atento ao trânsito automóvel e ao trânsito de bicicletas (este último praticado por ciclistas ainda pouco conscientes de que têm de circular com a mesma disciplina e precaução para com os peões que as regras impõem ao trânsito automóvel).

Av. da República: a seta mostra o percurso de um peão para atravessar a avenida; a linha oval mostra a nesga de passeio entre a ciclovia e a estrada. Será que o peão deve aguardar antes da ciclovia? Com que segurança?





















Os novos grandes passeios da Av. da República, inseridos no complexo de vias de circulação de todo aquele espaço, estão, pois, longe de significar uma conceção urbana respeitadora dos peões. Aliás, o alargamento desnecessário dos passeios até incentivou a utilização selvagem dos mesmos por ciclistas pouco impressionados com os percursos rígidos das ciclovias e ainda e sempre pouco conscientes das regras que os obrigam a circular pelas faixas de rodagem (em alternativa às ciclovias) e não por vias pedonais (exclusivas dos peões). De um ponto de vista pedonal, é difícil não ver em muitos ciclistas uma atitude de incómodo com os peões que em tudo se assemelha à de há muito vista em grande número de automobilistas.

De certa forma, as ciclovias recentes (que não são um mal em si mesmas e às quais voltaremos) são uma afirmação pública do triunfo do lobby urbano dos ciclistas, mais do que a afirmação de uma nova conceção equilibrada do espaço urbano e da segurança viária. Já existia o lobby organizado dos automobilistas. Muito provavelmente faz falta um lobby pedonal. Os peões continuam menorizados na "nova" Av. da República.

quinta-feira, agosto 24, 2017

PO:LIS:BOA (III)

A primazia do peão (bem) explicada


Circular dentro da cidade, a possibilidade de o fazer, é um dos aspetos fundamentais da vida urbana. Sem essa possibilidade, a cidade morre ou fica gravemente doente. E, claro, quem circula são as pessoas. Dito assim, parece demasiado obvio. Mas não é.

Quando uma determinada rua fica intransitável (ou quase), por exemplo durante obras demoradas no asfalto, o comércio ressente-se porque as pessoas são afastadas daquela artéria: se uma tal situação for mais que provisória, os males causados também o serão.

Muitas vezes, quando se pensa em “circulação” pensa-se em veículos. Estes são fundamentais – desde sempre para a deslocação de bens dentro do espaço urbano, mas também, em termos históricos mais recentes, para a deslocação de pessoas, dada a crescente extensão do espaço urbano e a multiplicação de deslocações diárias no seu seio e a necessidade de maior velocidade para esse efeito. No entanto, como já foi sugerido anteriormente, a deslocação é ainda e sempre importante à escala do peão, daquele que se move a pé nas artérias da cidade.

Mesmo com a motorização da mobilidade, as pessoas têm de fazer percursos a pé entre a saída dos veículos (públicos ou privados) e o destino da sua viagem urbana; e em quase todas as artérias há deslocações diárias sem utilização de veículos, nomeadamente de domicílios ou locais de trabalho para lojas, cafés, farmácias, supermercados, etc. A qualidade dos passeios como vias pedonais é extremamente importante para esse efeito e terá de merecer atenção neste lugar, mas não é o objeto direto do presente comentário. O cruzamento das vias de circulação dos peões com as vias de circulação dos veículos é que nos ocupa agora. Esse cruzamento faz-se sempre que o trajeto do peão é interrompido, “intercetado”, pelas vias destinadas aos veículos.

O peão tem de poder circular em qualquer artéria da cidade – por uma razão obvia: é ele que tem de entrar nos edifícios que se estendem e sucedem ao longo das artérias. Há muitos casos em que é possível entrar num edifício dentro de um veículo, mas já é excecional que essa seja a única forma de lá entrar. Dada essa universalidade da necessidade de circulação do peão, os seus percursos pré-definidos é que são intercetados pelos dos veículos e não vice-versa.

No cruzamento de peões e veículos há ainda outro factor bastante obvio: o peão é a parte mais vulnerável em caso de colisão. Falar-se do “perigo” que os peões representam em certas situações para a condução de veículos não pode obscurecer aquele factor. Nas grandes e pequenas artérias urbanas foi necessário criar rotinas “rotativas” de circulação de peões e veículos, interrompendo-se alternadamente a circulação de uns para passarem os outros (recorrendo-se às “zebras” no asfalto e aos semáforos luminosos). Isto indicia uma conceção da circulação urbana de uma certa paridade entre peões e veículos, embora, forçosamente, com a consciência de que o peão é fisicamente mais vulnerável.

Mas o “estatuto” do peão na circulação não se caracteriza apenas por esta vulnerabilidade; insisto: a sua circulação é que é universal e, em termos de trajetos pré-definidos, está em todo o lado, forçosamente. (As vias rápidas para veículos dentro da cidade, sem interceções de vias pedonais, são uma exceção e configuram outra realidade.)

Apesar da mudança que a (omni)presença de veículos motorizados introduziu no ecossistema urbano, o peão deveria ser visto como o elemento basilar da circulação dentro da cidade. Outras formas de circulação são necessárias e ganharam o seu espaço e legitimidade, mas nenhum deles subsitui ou tem sentido sem a possibilidade de circular a pé (ou numa cadeira de rodas ou num carrinho de bebé, situações em que os seus ocupantes são claramente peões, pois circulam pelas vias pedonais).

Voltando ao início deste comentário – e para reforçar a explicação da “primazia” do peão enunciada no título –, imagine-se ou procure-se casos reais de artérias onde não há vias pedonais ou onde estas sejam virtualmente inexistentes. É algo que, infelizmente, acontece muito em vias suburbanas. Dentro da cidade, isso implica claramente que essa via ou artéria não é realmente uma rua ou avenida, mas um género de “via rápida” e dificilmente se encontrará aí habitações com portas de acesso viradas para a rua, lojas abertas para a rua ou o ambiente “humanizado” decorrente de se observarem pessoas a andar ou rostos para fitar. Trata-se de uma artéria sem vida urbana e em que, de certo modo, a morte da cidade – ou a fuga da cidade ou a procura da saída da cidade – parece pairar.

O cenário que acabei de descrever é muito diferente do de uma artéria em que passamos à noite, quase completamente sem peões a circular, mas com passeios que dão acesso a lojas e habitações. Esta última é “cidade”; a anterior é só uma via de acesso à “cidade” ou uma “interrupção” da “cidade”.

A "primazia" do peão também reside nisto: é ele realmente quem "faz" a cidade – talvez até porque, historicamente, as cidades nasceram com ele e para ele. E essa dimensão, apesar do "ruído" que a circulação motorizada (que não é má em si mesma) pode introduzir na nossa visão da cidade, não se alterou nem se alterará.

Porque ler a "Sábado"

Sem menosprezar o meu interesse (não necessariamente “egoísta”) de me manter (minimamente) informado, há muito tempo que julgo que é um dever de “cidadania” [não é ocasião para aferir se este é o termo mais indicado aqui] comprar regularmente um periódico independente como forma de apoiar órgãos de uma imprensa livre na sociedade em que vivo.

“Imprensa livre” distingue-se de órgãos audiovisuais, por veicular informação escrita (e a escrita, sem desprimor para o lugar das imagens em movimento e do som, é tão importante na informação e na opinião como o é na transmissão de conhecimento e reflexão), e significa um periódico que não pertença ao Estado, não dependa de dinheiros públicos e venha mostrando pautar a sua linha editorial pela fidelidade a critérios jornalísticos de investigação e explanação de factos relevantes.

Seguindo esta bitola, há uma economia do tempo de leitura que dita algumas condições. Para quem quer ter parte do tempo para ler livros, a imprensa não pode absorver totalmente o que fica disponível entre o trabalho, a família e outros afazeres. Um jornal diário teria esse efeito se diariamente fosse adquirido. E adquiri-lo só nalguns dias da semana é como ver só excertos de um filme, a que no fim da semana faltariam partes do todo. Um semanário que possa ser lido em vários dias, sem nele despender toda a semana, torna-se o mais indicado. O semanário traz o todo informativo numa única edição semanal. Em princípio, está lá tudo – ou uma seleção aceitável e representativa do todo. Entre estes periódicos, os jornais tradicionais, como o Expresso, têm as desvantagens da enorme massa de papel e da profusão de cadernos que se tornam ingeríveis e que são pouco manuseáveis em cenário de rua e transportes públicos, que são os meus. Há também o problema da suja tinta de jornal.

As minhas leituras regulares de semanários tradicionais – mas em anos em que tinha largo tempo para a leitura, sem solicitações conjugais ou de paternidade – foram com o Expresso e o Semanário, que partilhava com o meu pai ainda quando aluno do liceu, e, depois, do Independente no início da minha passagem pela universidade (de 1987 até inícios de 90). Ora, as newsmagazines semanais são escolhas ótimas como resposta aos problemas já identificados com os semanários tradicionais.

Durante vários anos – desde cerca de 1992 até quase ao fim dessa década –, fui assinante do Economist, que é seguramente um dos melhores periódicos deste género a nível mundial. Mas houve coisas disfuncionais, que ainda hoje o seriam: o volume de informação é enorme (não ponho em causa a relação qualidade/preço) e tão global que todas as semanas, depois de um grande esforço de leitura, parecia ficar com boas pistas para questões importantes em várias partes do Mundo, mas sem ligação à minha realidade mais imediata – a portuguesa. A justificação que encontrava (o que é realmente relevante sobre Portugal, para lá da “espuma dos dias ou das semanas”, virá no Economist) era postiça, pois estar informado é também saber algo sobre coisas para nós muito conjunturais, triviais e/ou fúteis mas que influem no andamento do que nos condiciona.

Este aspeto é muito importante: se quisermos ter uma postura quase supramundana, a imprensa e as suas petites histoires são coisitas insignificantes; se quisermos ter uma atitude correta, de horizontes mentais largos, mas com os pés bem assentes na terra e com a predisposição que devemos ter para conhecer todos os nossos semelhantes e a forma como moldam o ambiente humano em que vivemos e a que temos de estar atentos, então “perder tempo” com trivialidades pode ser quase uma obrigação moral. É deste modo que entendo o célebre conselho de Karl Barth aos cristãos: andarem sempre com a Bíblia numa mão e o jornal na outra. Numa das mãos cabe, pois, um periódico “popular”, sem pretensões a grande estatuto de “imprensa de referência”, mas minimamente cuidado e bem alicerçado na realidade local.

Daquela experiência de leitura regular do Economist ficou-me, no entanto, o hábito de comprar e ler em cada mês de dezembro, mesmo que de forma salteada, o anuário The World In…, que é um género de resumo do que o Economist tem para dizer em cada ano (e que pode ser reforçado com o número duplo de fim de ano, que traz habitualmente artigos interessantes sobre temas para lá da simples atualidade). Entre 1984 e 1986 li regularmente newsmagazines como o Le Point e a Newsweek, mas com estas havia já a falta da minha realidade imediata. Por outro lado, em livros e artigos “técnicos” aprendi a procurar informação ainda mais consolidada sobre determinadas questões relevantes e globais que mesmo num periódico como o velho Economist só podem vir demasiado “mastigadas” e fragmentadas.

A Sábado apareceu-me em 2004 como uma forma improvisada e provisória (“à experiência”) de cobrir a minha necessidade informativa regular e com o tal “todo” representativo da semana. Já tivera, em anos muito anteriores, uma experiência de leitura regular da defunta Grande Reportagem quando foi newsmagazine deste género (à volta de 1985) e, ocasionalmente, da Sábado da 1.ª série (à volta de 1987). A Visão poderia ter sido “a” escolha, mas a sua linha editorial e os colunistas por ela privilegiados não eram (nem são) do meu agrado.

As características algo “híbridas” da Sábado, que junta à informação “política”, “geral” ou “superestrutural” um substrato de interesses sobre faits-divers, personalidades e temas “populares” ou da vida quotidiana (eu diria também “privada”) pareceu-me nos primeiros anos um aspeto negativo e que contribuiu para a suspensão da leitura regular durante uma quase meia dúzia de anos. Mas foi nesse tempo que estas reflexões se fizeram, em torno da questão: “Mas qual é, afinal, o meu ideal de periódico?” Claro que não há ideal no mundo real dos periódicos e o ideal abstrato não serve grande coisa para escolher entre o que há na realidade. Nesse tempo, a ideia de que a informação não é só, nem sobretudo, o que é “político” foi-se tornando cada vez mais clara.

A informação deve trazer-nos, na sua inteireza, o que é humano – abrangentemente.

Dessa forma, a “hibridez” da Sábado foi-se-me impondo como uma virtude: lá estava o local, o fait-divers, o “privado” (por exemplo, artigos sobre aspetos do quotidiano ou da vida familiar, por vezes bem interessantes, informados e bem escritos), a opinião plural de um punhado de colunistas (em geral sem agendas de lobbies estruturados) e, integrados nesta estrutura, os conteúdos gerais, “políticos”, do País e do estrangeiro. Este não está representado numa secção forte, mas não é fácil ter critério de relevância numa cobertura mundial de um semanário e a pertinência de juntar muitos pequenos-nadas semana a semana também é discutível. Mesmo assim, o que lá vem do Mundo é geralmente pertinente na conjuntura e conjuga-se bem com os pequenos apports diários de informação “picados” na Internet uma ou duas vezes por dia.

Grandes dossiers sobre assuntos estruturais do País ou do Mundo não têm, de qualquer modo, lugar real na imprensa, “de referência” ou mais “ligeira” – ficam para artigos e livros selecionados com critério próximo do académico. Dossiers extensos já a Sábado soube apresentar, tão bem ou melhor que certos títulos ditos “de referência” (como o Expresso ou o Público), sobre assuntos que são de facto da alçada da imprensa e a tornam potencialmente uma parceira instrumental da cidadania: casos de fraudes, corrupção ou abuso de poder como os que se passaram em torno de José Sócrates ou do Banco Espírito Santo – e aí, à extensão das matérias, esteve associada várias vezes a iniciativa e originalidade da investigação. Outros casos de menor dimensão ocupam-na quase todas as semanas.

A “diversidade compacta” da Sábado é reforçada pelo caderno agora reintegrado no corpo da revista e chamado GPS – é um conjunto de informação prática para tempos livres que qualquer periódico útil tem hoje de trazer e que, no seu caso, não fica atrás do de nenhum semanário em qualidade e quantidade.

A Sábado, como qualquer periódico, tem os seus defeitos. A seleção que faz em cada semana da informação relevante estará sempre exposta a críticas. Mas, mesmo tendo quase todas as semanas a muito humana experiência de me incomodar ou até irritar com pontos de vista que leio – por os achar limitados ou agressores em excesso dos meus preconceitos e posicionamentos –, até aí consigo ver um exercício de salutar confronto com o que é humano e que não se limita ao que sou, ao que me é confortável ou ao que me apetece (preguiçosamente) conhecer.

Encontrar tempo para ler a Sábado é importante.

segunda-feira, julho 03, 2017

Cassandra da debitocracia



Henrique Medina Carreira (1931-2017) deixou-nos hoje. Sou daqueles que já sente saudades do seu estilo direto e sem rodeios, focado no que condiciona a sério o futuro de todos e sem paciência para a conversa mole dos interessados na debitocracia que nos (des)governa. Este termo ocorreu-me hoje quando procurava uma palavra que caracterizasse a sua atividade cívica e presença pública nos últimos anos. Por esta "cruzada", obrigado Henrique!

domingo, janeiro 22, 2017

Donald Trump? Continuo a pensar como Tintim...


A inquietação de muita gente com a eleição (e, agora, a tomada de posse) de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos tem-me feito sorrir algumas vezes. Não é que eu goste do homem ou que me identifique com ele. O que me faz sorrir é a incongruência das pessoas autointituladas democratas e progressistas que se inquietam com Trump na Casa Branca e, como fazem alguns norte-americanos com ideias semelhantes, participariam de bom grado em manifestações contra a sua tomada de posse.

A eleição de Trump deveria ser festejada por toda a gente que acredita num sistema de eleição do chefe de Estado - sobretudo por aqueles que defendem esse sistema com base em ideias igualitaristas, de recusa do "privilégio de nascimento" no acesso ao cargo e na ideia de "igualdade de oportunidades" transposta para o acesso à chefia do Estado. Um puro outsider do sistema político, apoiado no voto dos seus concidadãos, conquista o cargo de topo da República. Isto não é lindo, bonito, emocionante, para quem se demarca, com grandes ares de modernidade e superioridade, daquele outro sistema em que ser chefe de Estado é algo reservado a uma só família?

"Não, nada disso", dizem-nos esses entusiastas dos chefes de Estado eleitos, "com o sistema de eleição, pelo menos, podemos ver-nos livres deles quatro anos depois". Então, tudo bem, não protestem, esperem quatro anos... Mas a questão não é essa. E se ele ganha outra vez? Foi possível a primeira e pode ser a segunda. E os estragos entretanto feitos? E o que garante que a seguir a um Trump não vem outro Trump? Mas, se não faz mal mesmo assim, então, não se inquietem - está tudo bem, de acordo com as vossas ideias.

Pessoas como Trump (e como demagogos dos "bons" de que os autointitulados democratas e progressistas já gostam) seriam ótimas pessoas como deputados num parlamento cheio de gente eleita e muito diferente entre si. A democratas sinceros (como eu neste ponto me considero), essa diversidade num parlamento não causa ansiedade. Mas como chefes de Estado, como alguém que, sozinho e em si mesmo, tem de representar toda a nação e esta ver-se por ele representado - são uma desgraça.

Por esta razão, o pensamento que está na imagem em cima já está comigo há muito tempo. E já fiz algum esforço de o racionalizar politicamente (§§10-12), é certo que às cavalitas de alguns gigantes como David Hume. Mas também, como explico a seguir, às "cavalitas" de instintos políticos da minha infância...

***

Eu cresci, por influência da minha mãe, num ambiente muito pró-americano - a minha mãe dizia «a América», nunca «os Estados Unidos» e era assim que eu também dizia até ser corrigido na escola. Nesse ambiente, através do cinema e da televisão, tive contacto com a célebre frase «Na América, qualquer um pode crescer e tornar-se presidente» (ou a variante «Meu filho, neste país, tu também poderás um dia ser presidente» ou qualquer coisa do género). Esta frase era a medida da grandeza da «América» e, por extensão, de todos os países que adotassem o sistema norte-americano. A minha mãe sorria com aprovação em relação a esta frase.

Mas sempre houve algo que, desde criança, eu achava disfuncional naquela ideia. As conceções políticas mais antigas de que me lembro ter deviam-se ao livro O Ceptro de Ottokar, uma das aventuras de Tintim e que foi o meu livro preferido nesses tempos em que comecei a ler (tinha a velha edição brasileira da Record). Adorava aquele livro, lia-o e admirava, literalmente, cada uma das páginas desenhadas. Mas com este livro eu adquiri alguns instintos políticos. Tintim era o meu herói e n' O Ceptro de Ottokar ele corre grandes riscos para salvar o rei da Sildávia de uma conspiração do Partido da Guarda de Ferro. O ajudante de campo do rei (fardado de negro na imagem de baixo) está implicado na conspiração e faz tudo para evitar que Tintim consiga avisar Muskar XII.

Para mim, não era nada evidente que aquele ajudante de campo (ou qualquer um dos que pensavam como ele) pudesse crescer com a ideia de que poderia ter o lugar de Muskar XII. Aquele lugar era do rei - o descendente de Ottokar IV, que cunhara o lema da monarquia sildava contra os usurpadores da função régia (Eih bennek, eih blavek, isto é, «aqui estou e aqui ficarei»). Eu via e vejo isso tão instintivamente como Tintim.


sábado, janeiro 21, 2017

O espelho do príncipe

Alexandra [Grace Kelly] e Albert [Alec Guiness] na cena da varanda: depois de todo o fair play com o desamor de Alexandra (que uma cultura de abnegação lhe dá com naturalidade), Albert confronta-a com a realidade. Esta é a base do serviço da realeza; a majestade de que é revestida é um verniz protetor e não mistificador.

O filme The Swan [1956, de Charles Vidor] com Alec Guiness e Grace Kelly, sobretudo o sublime diálogo entre ambos na varanda (cena final), é um dos melhores retratos humanos da instituição monárquica tal como ela foi recriada na Europa contemporânea.

A metáfora do cisne, aí usada para descrever a condição do monarca e dos seus familiares também investidos das funções dinásticas, coloca a importante questão de saber se tal condição e funções são um “sacrifício” e se este “desumaniza” os seus protagonistas (por lhes exigir a renúncia à “vida vulgar”): parece-me claro que é, de facto, um sacrifício e que este é inseparável da própria missão da realeza (como aliás acontece em muitas outras missões que os seres humanos se podem atribuir ou aceitar que lhes atribuam), mas é abusivo dizer-se que desumaniza por princípio – porque pressuporia que ser humano se limita a ser viver a tal “vida vulgar” (e é defensável que o é na maior parte do tempo).

Mas, no diálogo referido, Alec Guiness (o Crown Prince do filme) não diz que o cisne, no fundo e em privado (nomeadamente entre os seus ou na forma como ele e a sua Princess sempre partilhariam experiências como aquelas que nos foram dadas ver no filme), não seja um ganso – que “canta”, desajeitado, em privado e na experiência da morte, mas não em público enquanto cisne.

O drama da falecida princesa [Diana] de Gales foi que o sacrifício parecia não ser assumido e o que a realeza não comporta, precisamente, é uma posição dúbia nesse campo – ou se está no lago ou se está na margem (a posição demagógica de dizer-se que quer aproximar-se da margem ou mesmo estar na margem como cisne é pretender que se é cisne por natureza, em si mesmo; ora, como é claro no diálogo do filme, ninguém é realmente mais que ganso – o deslizar, a brancura e a majestade são atributos do lago, não do cisne individual, e que se degradam na margem).

É então o lago (a majestade – diferente de pompa – da realeza) uma hipocrisia? Pode ser se o sacrifício não estiver interiorizado pelos protagonistas, tornando-se assim vulneráveis ao chamamento e à adulação das margens; a educação dos príncipes e infantes deveria sempre orientá-los (e julgo que em geral orienta) para uma consciência aguda da natureza da sua condição e funções, devendo eles optar solenemente pela margem ou pelo lago.

Resta outra questão: é necessário à instituição monárquica este paradigma do cisne e do lago (que não foi sempre o seu)? A minha convicção pessoal é que esse paradigma (diferente do do rei pastor, do rei guerreiro ou do rei déspota iluminado) é uma recriação (ou reinvenção) histórica da instituição que a adaptou a uma função constitucional moderadora e de partilha da soberania e que a preserva melhor do desgaste quotidiano. Criou também, dentro do poder político constituído, um género de reserva humana que transporta um importante capital cultural familiar e que tem com a opinião pública uma relação mediada pela sua estrutura simbólica que, pela sua continuidade, tem uma oportunidade única de aperfeiçoar-se por constante reelaboração. Isso permite-lhe corrigir permanentemente a sua relação com a opinião pública e, nela, fortalecer a base de mútua confiança que só na realeza é, em alto grau, simultaneamente política e humana.

Uma última questão, bem importante, é a de algumas pessoas acharem que a vida privada do monarca e dos seus familiares deve ser de algum modo “exemplar”; aqui há que desfazer este terrível mal-entendido, de que se servem – não sem tremenda hipocrisia – muitos anti-monárquicos: ninguém deve saber da vida privada do monarca e dos seus familiares e muito menos se deve cultivar a ideia da “família real” como família-modelo seja do que for.

Essa rigorosa privacidade é, aliás, condição do que aqui escrevi acerca do lago em que se move a instituição: essa majestade é eminentemente política e simbólica (entre a realeza e os súbditos) e não tem nenhum carácter de ideal comportamental privado. É evidente que podemos preferir príncipes virtuosos – e muitos sê-lo-ão –, mas é absurdo exigir que o sejam necessariamente; isso seria um peso que nenhuma instituição aguentaria...


[Com o título Cisnes que são gansos, ou a condição da realeza, esta nota foi publicada na revista Real n.º 49-50 (Nov. 2001-Nov. 2002), p. 22.]